Ofício de Escrever

Ofício de Escrever

Ofereço esta crônica a todos aqueles que se dedicam ao espinhoso e delicioso ofício de escrever. Seja por obrigação (jornalistas), devoção (escritores) ou curtição (amadores e diletantes).

Pincei e ofereço graciosamente algumas dicas primorosas, de gigantes da palavra (em prosa e em verso): o patrício e mestre absoluto Graciliano Ramos; os mestres mexicano e argentino, Juan Rulfo e Jorge Luiz Borges, respectivamente; além do cronista Luiz Fernando Verissimo e do poeta João Cabral de Melo Neto.

Vamos primeiro ao bom e velho Graça, que disse assim:

“Quem escreve deve ter cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar com ouro falso, a palavra foi feita para dizer.”

E a dica de Rulfo, o autor do fundamental romance “Pedro Paramo” e do volume de contos “Chão em chamas”, ambos traduzidos divinamente aqui por Eric Nepomuceno:

“No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar, é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito.”

Parece fácil, não é? Quem dera.

Verissimo, que até brincando com as palavras ensina e diverte, brincou assim numa crônica: “A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo?”. Certo, claro. Mas, como certo ou errado nem tudo o que se escreve é publicado, gosto dessa do mestre Borges, sobre o ato de publicar, que escritores tanto apreciam: “Publicamos para não passar a vida corrigindo rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele”.

E vamos à receita deliciosa de João Cabral, para fechar a crônica e abrir o dia com poesia:

“Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.”

Então, é isso. Fica combinado que o leve, o oco, a palha e o eco não servem para nada mesmo; nem na panela nem no papel.

 

 

 

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