Queridos Livros

Queridos Livros

Os primeiros livros que eu vi na vida eram pequenos, tinham capa de couro vermelha ou branca, folhas finas. Ficavam na sala de estar da minha casa. Eram os clássicos franceses, entre eles, 12 volumes de Os Miseráveis, de Victor Hugo, outros tantos do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, a obra completa de Molière, as fábulas de La Fontaine. Alguns têm a dedicatória do meu avô, que eu nem conheci. Outros, o nome dela e o ano. Mamãe começou a fazer essa coleção aos 16 anos. Que linda!

Nunca os li. Estão velhinhos, desbotados, mas não consigo me desfazer deles.

O primeiro livro pelo qual me apaixonei, nem sei o título. Eu li mil vezes, folheava sem parar, encantada, maravilhada. Era sobre as moradias ao longo da história. Desenhos, em preto e branco, das casas no mundo inteiro. Começava nas árvores dos nômades, continuava nas cavernas, nas casas de barro, de palha, de pau-a-pique, os iglus, seguia para as casas de pedra, os castelos, até as casas de tijolo e os prédios dos anos 1950. Eu não me cansava de ler.

Lá pelos nove, dez anos, só queria saber de gibis. Luluzinha e Bolinha, Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Tarzan, Fantasma. Até hoje adoro o Chico Bento. Meu tio médico solteirão tinha uma cômoda enorme em seu quarto com as gavetas lotadas de histórias em quadrinho. Eu queria crescer, trabalhar, ganhar dinheiro para comprar gibi.

Eu gostava tanto de ler que quando ia na casa de amigos, eles escondiam as revistas. É que eu preferia ler do que brincar. Com 17, 18 anos, li O fio da navalha, do Somerset Maugham. Me apaixonei por Larry, o protagonista que vivia angustiado, foi meditar no Tibet e acabou motorista de táxi em Nova York. Como eu gostei. Depois, comecei a ler sem parar. Dostoievsky, Tolstói, Flaubert, Kafka, Proust, Fitzgerald, Hemingway, todos esses livros que todos nós lemos.

Então, caiu no meu colo a obra de Herman Hesse. Dele, passei para a fase da Terceira visão, de Lobsang Rampa e, em seguida, Carlos Castaneda e a Erva do Diabo. É claro que li também todos os livros do Jorge Amado, do Érico Veríssimo e sabia de cor os poemas de Vinicius e de Manoel Bandeira. Fiz faculdade de Letras e fiquei afiadíssima. Depois, veio a fase dos latino-americanos. Jorge Luis Borges, Neruda, Mário Vargas Llosa, Garcia Marques – se me perguntassem qual o livro que eu mais gostei na vida, eu respondia sem pestanejar – Cem anos de solidão. Li aos 20, aos 30, aos 50… continuo lendo…

O mundo dos livros me trouxe milhares de surpresas. Me proporcionou viagens, sonhos, emoções, paixões, medo e coragem. Mas tem dois fatos que me impressionaram. Já tem tempo e não esqueço:

O primeiro livro que eu li do Salman Rushdie acho que foi O último suspiro do mouro. Amei. Passei a considerá-lo o Garcia Marques do Oriente. Li outros, gostei de todos, mas a primeira impressão marcou.

O Caçador de Pipas me chocou (no bom sentido). Primeiro porque, nos anos 1970, a vida dos personagens era igualzinha à nossa. Depois, que o sentimento e a emoção deles também era igual a nossa. Daí que eu percebi, veja só, uma mulher adulta, vivida, mãe de família, que as emoções são as mesmas, as necessidades são as mesmas e que o homem – seja onde for – sente igual, precisa das mesmas coisas.

Obrigada, meus livros. Por me acompanharem nas noites, antes do sono, nas viagens, nas férias, por encherem todos os dias da minha vida de gente e de histórias.

Lucia Koury

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