Desencontrar-se de si mesmo: Dom Casmurro e a vida não vivida

Fábio Cordeiro

Psicólogo, psicoterapeuta junguiano

Dra. Nise da Silveira costumava dizer que considerava Machado de Assis seu grande mestre em psicologia. Os grandes escritores costumam ser, antes de tudo, grandes mestres da alma humana.

De fato, o mundo interior dos personagens de Machado é tão ou mais rico do que os acontecimentos externos de suas vidas. Cada página de Machado é uma verdadeira aula de psicologia profunda, com enlaces e desenlaces, conflitos éticos e morais intensos. De todos os romances do Bruxo do Cosme Velho, o mais analisado é, sem dúvida, Dom Casmurro. O ponto crucial das discussões que envolvem Dom Casmurro é a infindável dúvida: afinal, Capitú teria ou não traído Bentinho? Não vou por aí. Escolho outra trilha, quase desapercebida, nesse grande romance: o soneto inacabado.

“Um soneto” é o título do capítulo LV de Dom Casmurro. Bentinho está no seminário para se formar em padre, como se sabe, contra a sua vontade. No meio de uma noite de insônia (“Insônia, musa de olhos arregalados”), lhe vem à cabeça o verso inicial de um poema, que surge na métrica perfeita de um soneto: “Oh flor do céu! Oh flor cândida e pura”. Bentinho se põe a pensar, então, quem seria a tal flor. Primeira ideia óbvia: sua amada Capitú, de quem está afastado estudando para padre. Mas, logo intervém outro pensamento: a flor bem poderia ser um conceito mais nobre: a virtude, a poesia ou, quem sabe, a religião.

Sem conseguir tomar a decisão essencial para continuar o poema, ele acaba pulando etapas e cria então o último verso: “Perde-se a vida, ganha-se a batalha”. Fica muito satisfeito com a sonoridade e com as possibilidades simbólicas de leitura: “Tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da vida, pensamento alevantado e nobre”, pensa ele. E segue pensando: poderia ser uma batalha pela pátria e, nesse caso, a flor do céu seria a liberdade. Poderia ser a caridade… e assim pensando, a noite passa e ele não conclui o soneto que vai permanecer por toda vida inacabado. Muitos anos mais tarde, tendo o adolescente Bentinho se transformado em Dom Casmurro (o casmurro querendo dizer rabugento), conclui: “Pois senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz.”

Há pessoas que passam uma vida deixando “sonetos inacabados” pelo caminho, para chegarem à conclusão, tempos mais tarde, que definem-se mais pelo que não fizeram do que pelo que de fato foram capazes de viver. Têm saudade do que poderia ter sido, e alguma mágoa ou raiva do que efetivamente foi. Dão-se mal com o passado, porque quando este era ainda o jovem presente, algo lhes impediu de, vivendo de acordo com suas inclinações e desejos, criarem um futuro mais justo para consigo próprios. Passaram a vida criando versos iniciais e imaginando um final glorioso com chave de ouro, mas evitaram de toda forma o essencial: o desenvolvimento, o sujar as mãos na lama da vida. Não se faz soneto com abertura e chave de ouro; é necessário passar pelos doze versos anteriores, pelos “doze trabalhos” que dão materialidade a qualquer realização. O excesso de hesitação enche a cabeça de pensamento e esvazia a vida de ação. Em pensamento tudo é ideal, já na vida as coisas são mais tortas, empoeiradas e muito distantes de delírios de pureza, das flores cândidas.

Uma das características marcantes da neurose é a excessiva hesitação: abundam projetos que poderiam, amores que poderiam, vidas que poderiam. Um compêndio de sonetos inacabados. Jung dizia que a neurose é caracterizada pelo desacordo consigo mesmo. O inconsciente diz que “sim” à flor, ao desejo mais autêntico, ao desabrochar do novo, a uma transformação, que envolve sempre algum risco; mas a consciência diz “não”, quer coisas elevadas e reconhecidas socialmente: virtude, moral, caridade, objetividade, amor à pátria etc. Instaura-se o desacordo consigo mesmo. Um processo aflitivo de paralisação. Lembro de um verso da poetisa polonesa Wislawa Szymborska; “Prefiro-me gostando de pessoas, do que amando a humanidade”.

Esse conflito, na grande parte das vezes, acaba produzindo a energia necessária para resolver o impasse com uma solução criativa, um acordo, um “tratado comercial” entre a atitude inconsciente que deseja e a resolução consciente que pondera: ambos cedem. Algo novo surge e o soneto se conclui, a vida anda, a flor se abre. Mas se o impasse permanece, o resultado são os sonetos inacabados da vida. Uma guerra sem fim. Prevalece o desacordo consigo mesmo, uma atitude permanente de hesitação, que conduz em algum momento a uma visão casmurra da vida.

Um poema publicado pode ser amado ou odiado, aclamado ou desdenhado. Um poema que não se publica não corre riscos, sempre poderia ter sido grandioso, mas não o sendo, também jamais será medíocre. Jamais será nada, estamos protegidos dos riscos da vida, ou assim achamos. Nos processos de grave desacordo consigo mesmo, de grave neurose, vai-se de nada em nada, projetando no outro as impossibilidades da vida não vivida. A consciência quer linhas retas, claras e objetivas, mas o processo de desenvolvimento da personalidade assemelha-se mais à forma de uma serpente, cheia de curvas, movimentos pendulares, avanços e recuos.

É sempre bom perguntarmos de vez em quando onde estão nossos sonetos inacabados e considerar o que nos impede de colocá-los na vida. Que conflito, que impasse estamos evitando confrontar? O soneto inacabado de Bentinho admitia dois finais: “Ganha-se a batalha, perde-se a vida” ou “Ganha-se a vida, perde-se a batalha”. A escolha é sempre nossa.

Publicado no Jornal do Brasil on line em 31/10/2019

e-mail: flavio@flaviocordeiro.com.br

Autor do livro O abalo sísmico e outros abalos, que se encontra em https://outrasletras.com.br/product/o-abalo-sismico-e-outros-abalos/ 

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