Paraísos Artificiais (ou reais?)

Flávio Cordeiro, flavio@flaviocordeiro.com.br Psicólogo e psicoterapeuta de orientação junguiana.

Publicado no Jornal do Brasil em 05/03/2020

Jang Ji-sung é uma mãe sul coreana que perdeu sua filha Na-yeon quando ela tinha apenas sete anos de idade. É uma perda dolorosa, pois não estamos preparados psiquicamente para ver nossos filhos partindo antes de nós. Esse é um tipo de experiência “indizível”. 

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Há no Rio de Janeiro um instituto chamado “Mães sem nome”, que congrega mães e pais que perderam seus filhos. O nome do instituto foi escolhido a partir da constatação de que somos órfãos quando os pais morrem, somos viúvos e viúvas quando os cônjuges falecem, mas não há em nossa cultura um nome que dê conta dessa experiência tão visceral que é a perda de um filho. É dentro desse contexto que volto à Jang Ji-sung. Algo de não usual ocorreu entre ela e sua filha; elas voltaram a se encontrar, três anos após a morte de Na-yeon.

Esse reencontro foi possível por meio da tecnologia de Realidade Virtual e faz parte do documentário “I meet you”. Os realizadores reproduziram, a partir de fotos, vídeos e até mesmo de gravações da voz de Na-yeon, uma experiência em que a menina reaparece em um parque, onde a família levava a filha. Na-yeon fala com sua mãe por alguns minutos; a menina surge correndo e pergunta: “Mãe, por onde você esteve? Você esteve pensando em mim?”. É profundamente comovente ver Jang Ji-sung, em prantos, tentando tocar a imagem da filha. Vídeo abaixo.

Aqui todo cuidado é pouco, é preciso suspender os julgamentos antecipados. Distopia? Absurdo? Exploração inconsequente da vulnerabilidade alheia? Jang Ji-sung descreveu esse encontro como um “paraíso real”, como um “momento muito feliz” e como se tivesse realizado “um sonho sempre desejado”. É muito difícil prever qual o impacto de longo prazo dessa experiência para essa mãe e que efeitos psicológicos poderão ser desencadeados por esse encontro “real”.

A tecnologia avança em áreas da vida que até então estavam preservadas da invasão da hiper-realidade. O luto é uma dessas experiências. Um dos mais renomados especialistas na terapia do luto, J. William Worden, afirma que “a principal tarefa do luto é a aceitação. Aceitar a realidade da perda, intelectual e emocionalmente, sem necessariamente se desconectar”. Atravessar o processo do luto não significa desvalorizar a relação que existia, mas integrar essa experiência de perda e conferir um novo sentido à vida a partir dela. A ênfase recai nas palavras “processo” e “novo sentido”.

Tenho me interessado pelo impacto da tecnologia em nosso psiquismo. Não se trata apenas de um exercício de futurologia, pois a tecnologia afetará, queiramos ou não, as formas como lidaremos daqui em diante com questões fundamentais da alma humana. Vai além: o mundo da hiper-realidade nos convida a todo tempo a nos questionar “o que é real?”.

Não é difícil imaginar que com a rápida disseminação e barateamento das novas tecnologias de Realidade Virtual, Realidade Aumentada e Inteligência Artificial, a criação de experiências de Imortalidade Virtual estarão ao alcance de milhares de pessoas em alguns anos. Qual o impacto dessas experiências em nosso psiquismo? A resposta humilde é: não sabemos. Não sabemos ainda.

A relação entre luto e avanço tecnológico me parece uma área especialmente sensível e de grande interesse para a psicologia. Há no processo do luto um momento em que o enlutado reconhece que a perda é permanente, é então possível desistir da expectativa de reaver a pessoa perdida. É o momento, variável para cada pessoa e cada circunstância, em que novos papéis e novas relações se tornam possíveis. A pessoa que morreu ganha um lugar permanente: a transição do concreto para o simbólico se completa. Simbolizar significa encontrar ou construir um sentido que num primeiro momento ainda se encontra oculto na realidade concreta.

Uma atitude simbólica nos ajuda a transformar as pedras do meio do caminho, no pavimento que asfalta nosso processo de crescimento pessoal. Este talvez seja o maior desafio psíquico colocado pela hipermodernidade.

Como lidar com as perdas e os lutos em um mundo que possibilita mecanismos de eternização cada vez mais sofisticados? Como redefiniremos as tarefas do luto diante da possibilidade de nao haver desligamento do ente falecido? Ou será que essas experiências se demonstrarão favoráveis e reconfortantes? A eternidade se tornara um novo mercado para as empresas de tecnologia? Como encontrar sentido simbólico diante da hiper-realidade da imortalidade virtual? Teremos nós que enfrentar, em algum momento, a tarefa de nos enlutar por um mundo que vivemos e que a ruptura tecnológica começa a sepultar?

Deixo o leitor com mais perguntas que respostas neste retorno das férias do Carnaval

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